Encontro

19 jan

Era uma noite de quinta-feira. Estava frio apesar de ser verão. Voltava do trabalho usando meu all-star preto enquanto lia sobre Le Corbusier em pé no trem. Estava cansado e com fome e só pensava em chegar em casa. De repente me veio a sensação de estar sendo observado. Reluto em levantar o rosto e confiar no meu feeling de estar sendo observado.

– Talvez fosse só minha imaginação; indago a mim mesmo.

Mas a curiosidade foi maior e levanto meu rosto da página 38.

Era ela.

Estava à uns quatro metros de distância de mim. Os olhos fitavam um para o outro por um instante enquanto ela me dava o seu enorme sorriso. E eu; como sempre; lhe dei aquele sem dentes, apenas levantei as bochechas pra cima junto com as sobrancelhas por infames um segundo. Ela viu se dava pra ficar do meu lado apesar o trem lotado. Não tinha muito espaço. Mas ela insistiu e, como sempre quem quer, consegue, ela conseguiu esquivar das pessoas e ficar do meu lado.

– E aí? Lendo o que? Corbusier?

Para uma pessoa tímida como eu, me surpreendo como pessoas conseguem puxar assunto tão facilmente sobre algo tão escancarado. Eu não teria essa facilidade. Conversamos sobre algo ou outro do livro apenas para iniciarmos a conversa. Não durou muito mais do que dois minutos para ficarmos espremendo mais papo com esta pergunta.

– Faz muito tempo, não?

Pior que fazia mesmo. Tenho uma certa habilidade em ficar isolado das pessoas que elas acabam esquecendo que existe um “Marvin” em sua lista de contatos. Me expresso em alguns argumentos fracos e desculpas esfarrapadas para ver se o assunto sobre este tema termine o mais rápido possível. Chego até mentir. Mas se tem algo pra quem eu não consigo mentir são para os seus olhos. Como uma agulhada no peito, seus olhos fazem com que a pior das minhas desculpas sejam levadas pelo vento da praia quando leva nossos pensamentos mar adentro enquanto olhamos o horizonte.

Um horizonte inteiro do tamanho imensidão do oceano na minha frente resumidos naqueles olhos.

Ela percebe.

– É… gostaria de conversar sobre algo?

Apesar de estar desarmado, ainda insisto em tentar me esconder.

– Não! Nada demais. Coisas da vida.

Aqueles olhos continuam me prendendo.

– Coisas da viga.

Uma piada nossa. Um breve sorriso sincero. Um alívio dentro de mim em saber que o meu humor conseguiu desviar o foco de mim. Mesmo que por um curto período de tempo. Continuamos puxando assuntos bem genéricos apenas por estarmos lado a lado. Três estações depois uma conhecida sua entre no mesmo vagão e, ao reparar nela, entram em uma roda de assuntos que duram nove estações; que é o destino de ambas. Chegando neste destino, ela me abraça. Abraço rápido o suficiente pra não ser algo constrangedor, mas forte o suficiente para me passar uma mensagem. Como se aquele abraço tentasse transmitir uma frase.

– Quando quiser, estou aqui, ok?

No final do abraço, aquela imensidão oceânica me encara novamente os olhos. Eles também disseram que “estariam ali pra quando eu quiser”. O último toque seu em mim foi sua mão esquerda sob meu ombro enquanto nos despedíamos.

– Tchau!

– Tchau.

Ainda permaneço dentro da sua lista.

Independentemente do quão sozinho se está, existe sempre alguém do seu lado.

E fico feliz em saber que ela sempre esteve.

12 dez

São 1h09 da manhã e acordei e, pelo jeito, não vou conseguir voltar ao sono.

Tive um pesadelo. Prefito não descrevê-lo pois só de lembra-lo já me dói um pouco.

Queria poder esquecê-lo. Espero que com o tempo eu esqueça.

Espero.

Odisseia nórdica

1 nov

Coincidentemente, nos retornamos no mesmo dia. Na data tão celebrada, na minha face não houveram risos.

No meu palácio não há súditos.
No meu império não há escravos.
Na minha casa não há servos.
Na minha língua não há “nós”.

O “eu” ecoa sob a vazio e traz o que estava acordado.
O Cérberus imune à lira de Orfeu.
Empossaram-me na jaula da besta e coroaram-me com ouro. Do outro lado das grades, os reis e rainhas se deleitam nos banquetes de Valhala. As bênçãos de Baco se imunizaram sobre mim. Imune à honra, vejo a estrela do norte se apagando.

Ao distar, vejo Caronte em sua jangada olhando pra mim. Sem moedas em meu bolso, indago que não posso pagá-lo. Ficou surpreso ao ver que eu estava interessado em atravessar o rio; apesar de já haverem outros que também fizeram a mesma proposta.

Sob o Aqueronte, me deleito numa lira e durmo na jangada. Seria essa Lira a que supostamente adormeceria Cérberus?

Talvez a besta seja sã.

Talvez não há lugar na mesa de Valhala.

Sob meu céu, a aurora clareia o céu da noite. Mas não ouço elas me chamando pelo nome.

Só queria que tivessem avisado antes de ter cruzado os 9 Mundos.enquanto reis e rainhas cruzaram apenas 3.

The “i” – Ignored

8 dez

Coincidentemente hoje é o dia em que os ventos do norte sopram em minha direção. Rebatendo no lago a minha frente, ondas são feitas que caminham em círculos do centro para as bordas. Enquanto isto, o som do relógio ecoa no vago espaço que os rodeia. Confundido-se com o assobio do vento, o tic-tac me traz a mesma mensagem. Mensagem esta que o vento, o lago e o relógio era de minha expectativa.

– Já é muito tarde.

Fecho os olhos e ignoro o tempo. Fecho meus punhos e ignoro o frio. Ergo a cabeça e ignoro o lago.

Pulmões são inflados pelo vento do norte, fazendo o assobio ficar mais calmo. Quando me dou conta, não há sons para ser escutado. Não há vento, tic-tac do relógio nem o bater das ondas do lago nas rochas. Todo o barulho sinfônico da natureza ao meu redor é excluído de mim. Não existe diferença entre eu e o fora. Tudo é o mesmo. E enquanto a minha introspecção torna-se o mundo, eu grito.

Grito.

Mas não escuto,

Eu sei que grito pois minha laringe dói como nunca doeu. O frio ainda piora a situação. Grito tanto que deito-me ao chão. De joelhos na terra e mãos apoiadas, abro os olhos e reparo o quão fica difícil respirar. Mas eu gritei. Gritei e não ouvi. Não houve sons a ser escutados por ninguém. Não se escuta nada dentro de mim.

Levanto-me recuperando com a questão da real razão de tal cenário que acabo de realizar. A naturalidade dos acontecimentos foi tão espontânea que me pergunto de aquilo tudo era um sonho.

– Já é muito tarde.

Aí então o som volta. O vento, o lago, o relógio. Inclusive meu grito. Torno-me um ser a parte do meu redor. E eu sei que já é tarde. Apesar de não precisar que me lembrem, não os culpo. Estavam apenas fazendo o seu trabalho de mensageiros. Mas como eu fui ser tão ignorante em não entender tudo isto? Como não escutei minha própria voz apesar de minha garganta estar doendo?

Devo estar perdendo algum ponto de vista. Ou houve um atraso no que se espera do que se concretiza.

Ou ambos.

Mas não importa.

Pois independente do tempo ser tarde ou não, eu me levanto.

E continuo. Sabendo que ainda há muito o que se sonhar. Ainda há (talvez) algo em que se esperar neste lugar pois eu sei que entre as luzes e as ondas vazias superficiais é aonde eu irei estar no fim. E naquele momento, estarei só.

No fim.

Ela.

3 out

Ali está ela.

Parada no seu canto da festa.

Sentada. Em pé.

De vermelho. Olhos castanhos.

Olhando em meus olhos.

Fixo.

Envergonho-me e olho para o lado.

Volto meus olhos em cruzamento com os dela.

Ela me encara.

Ainda.

Fixa.

Ela vem.

Caminhando.

Me abraça.

Me toca.

Me beija.

E sussurra.
 – Eu estou aqui.

Olhando nos meus olhos.
 – Estou aqui.

Tocando no meu rosto.
 – Sempre te amei.

Segurando minha mão. 
 – Vem.

Cruza os nossos dedos.
 – Vem.

 – Vem.

Meus passos sincronizam com os delas.

O som de seu salto alto é uniforme.

Meus passos com os delas.

E fui.

E andamos juntos.

Novamente.

 

Queria dizer-lhe algo, mas não consigo.

Mesmo se conseguisse, não saberia o que dizer.

 

Não sei.

 

Apenas fui.

Mas não importa.

Nada importa.

Citação

Se a minha saud…

27 ago

Se a minha saudade fosse magia, você não apenas estaria viva; seria imortal.

A cidade das cidades das pessoas.

13 jun

               Eu estou aqui. Mas queria estar lá. Nem sempre há diferenças em todo lugar. A pluralidade de características existentes nas diversas regiões em São Paulo nos fazem crer que os extremos em qualidades compostas são sim, mais importantes do que suas singularidades. Desculpem-me se estou sendo extremista demais nas minhas conclusões sobre essa cidade. Mas a síntese desse organismo vivo chamado cidade é apenas um. 
                Nós.
                Nós somos os anticorpos responsáveis pela defesa da sua manutenção. Nós somos o sistema nervoso capaz de dar a resposta a todos sobre o que está de errado. Nós apenas. E são de pessoas que as características das suas regiões são feitas. Essas coisas que deram o nome de homo sapiens é capaz de, apesar de terem a mesma composição bioquímica, darem reflexos diferentes para a sua região dentro da metrópole.
                Talvez tal cenário meu descrito foi resultado consequente após eu ter tirado fotos com estranhos no bairro de Pinheiros, ficar parado na frente da estação Largo 13 ou ficar andando de branco no bairro do Bixiga. Ouso dizer ainda que esse pensamento é decorrente de uma percepção póstuma dum raciocínio minimalista sobre a cidade a qual eu tinha. A cidade é muito grande pra se entender estando apenas no seu bairro. E pior ainda é quando tentamos atravessar esse limite da nossa zona de conforto territorial andando de costas: você nunca vai enxergar o que há no seu trajeto se for andando sempre de olhos para a sua origem. Pior ainda é já ser prepotente o suficiente em achar que já sabe o que há além do horizonte.
                A metrópole de nada difere das pessoas. Além do mais, ela foi feita pelas pessoas. Tudo bem que sua dinâmica ainda é objeto de estudo por causa de sua imprevisibilidade (fato é que estamos aqui a estudando). Toda criação do já citado “homem sábio” recebe seus reflexos da época atual. Portanto se a cidade está chata, pasme, você está chato.
                Acredito que a falta de curiosidade regada ao pensamento de que a cidade é apenas um corredor entre sua casa e seu local de trabalho. Como se ela não existisse. E quando aparecem pessoas vestindo preto e branco na rua, veem isso como um estorvo. Tudo bem que muitas pessoas enxergavam naquilo um momento de descontração. Pessoas estavam usando a cidade. O espaço que ali temos de convivência. Uma grande sala de estar aonde todos podemos sentar e conversar sobre esse universo gigantesco único no mundo chamado São Paulo.

 


Texto feito para a disciplina Projeto interativo III – Metrópole.

Resolvi postar este texto pois eme, de alguma maneira, reacendeu a chama da minha vontade de voltar a escrever. Ele me fez dar conta de que eu sentia REALMENTE falta de colocar em palavras o que se passa pela minha cabeça.

E, por uma razão inexplicável, estou bem feliz com isto. 🙂